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O que é o narcisismo, de verdade?

  • Foto do escritor: André Luiz Figueirêdo
    André Luiz Figueirêdo
  • 17 de mar.
  • 3 min de leitura



A palavra narcisista tem sido usada com muita frequência atualmente — em conversas do dia a dia, nas redes sociais e na cultura popular. Muitas vezes, ela serve para descrever alguém que seria egoísta, arrogante ou emocionalmente prejudicial. Mas, como psiquiatra, posso afirmar: a forma como o termo narcisismo é usado no cotidiano é bem diferente da maneira como o compreendemos na clínica. E, mais importante, trata-se de algo muito mais complexo — e humano — do que simplesmente rotular alguém como “tóxico” ou “ruim”.

A Visão da Cultura Pop: Narcisista como “Pessoa Má”

No uso popular, chamar alguém de narcisista muitas vezes é uma forma de patologizar ou julgar essa pessoa. O termo é aplicado para descrever pessoas que parecem egocêntricas, manipuladoras ou carentes de atenção — geralmente no contexto de relações difíceis. Assim, a palavra vira um julgamento moral, uma maneira de dizer: “Essa pessoa é egoísta e faz mal aos outros”.

O problema é que esse uso do termo é pouco preciso. Ele simplifica demais e ignora as vulnerabilidades psicológicas e o contexto emocional que existem por trás de certos comportamentos.

A Visão Clínica: Narcisismo como Vulnerabilidade

Na psiquiatria e na psicanálise, enxergamos o narcisismo de forma bem diferente. Em vez de vê-lo como um sinal de “maldade”, muitas vezes entendemos os traços narcisistas como reflexo de uma profunda vulnerabilidade — especialmente relacionada à maneira como uma pessoa experimenta o seu próprio valor pessoal.

Algumas pessoas, por vivências ao longo da vida — frequentemente desde a infância — podem ter um senso de si mesmas mais frágil ou pouco nutrido emocionalmente. Quando o “eu” não foi suficientemente nutrido, a pessoa pode, sem perceber, precisar investir muita energia em manter sua autoestima. Isso pode se manifestar como:

  • Um foco intenso em si mesma.

  • Busca constante por reafirmação ou validação.

  • Grande sensibilidade à crítica ou ao sentimento de não ser vista.

Esses comportamentos muitas vezes são tentativas de lidar com sentimentos de insegurança ou de não se sentir suficiente. Assim, o narcisismo é menos sobre arrogância e mais sobre sobrevivência emocional — um esforço para evitar que o “eu” desmorone sob pressão.

E algo fundamental: isso não define a pessoa por completo. Muitos indivíduos demonstram traços narcisistas apenas em certas situações — no trabalho, em relacionamentos, ou quando se sentem ameaçados.

Quando se Torna um Transtorno

Há pessoas cuja vulnerabilidade narcisista é tão intensa que molda sua maneira predominante de se relacionar com os outros e com o mundo. Na psiquiatria, isso é chamado de Transtorno de Personalidade Narcisista — uma condição reconhecida pelos manuais diagnósticos.

Pessoas com esse transtorno frequentemente dependem muito da validação externa, podem ter dificuldades com empatia, e se apresentar com senso de superioridade. Mas, mesmo nesses casos, é essencial entender que esses comportamentos geralmente são defesas — formas de proteger um mundo interno instável.

Todo Mundo Tem Traços Narcisistas — E Isso é Saudável

Um dos aspectos mais mal compreendidos sobre o narcisismo é este: todos nós temos traços narcisistas. E isso não é um defeito — é parte da nossa condição humana.

O narcisismo saudável nos permite:

  • Ter autoestima e confiança.

  • Sentir orgulho das nossas conquistas.

  • Estabelecer limites e ocupar nosso espaço no mundo.

  • Buscar reconhecimento e afeto nas relações.

Sem um certo grau de narcisismo, não conseguiríamos viver bem. Ele só se torna prejudicial quando a pessoa tem uma fragilidade tão grande no seu senso de si que precisa constantemente compensar isso — ou quando seu comportamento causa sofrimento a si mesma ou aos outros.

Por Que Isso é Importante

Compreender o narcisismo de forma mais compassiva e complexa nos ajuda a ir além dos rótulos e desenvolver uma postura de curiosidade — sobre nós mesmos e sobre os outros. Nos permite enxergar que, por trás de muitos comportamentos egocentrados, pode existir alguém que está lutando para se sentir seguro, visto ou valorizado.

Também nos ajuda a diferenciar uma pessoa que tem alguns traços narcisistas (como todos nós temos) de alguém cuja personalidade está profundamente estruturada em torno dessas dinâmicas. Esse segundo caso pode se beneficiar de ajuda profissional; o primeiro talvez precise apenas de limites saudáveis, acolhimento ou escuta.

Reflexão Final

Talvez seja hora de mudar a conversa:

  • De “narcisista = pessoa ruim”

  • Para “narcisismo = uma forma de lidar com a autoestima, algo que todos fazemos de modos diferentes”


Ao reconhecer o narcisismo como parte da experiência humana, podemos construir relações com mais compreensão e empatia, sem cair em rótulos fáceis. Também conseguimos entender melhor as raízes psicológicas de certos comportamentos que, à primeira vista, podem parecer confusos ou dolorosos.


Dr. André Luiz Figueirêdo

Médico Psiquiatra

CRM-SP 224805

RQE 95913


 
 
 

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